É muito comum rolar a timeline das redes sociais e encontrar fotos impecáveis de influenciadoras ou até mesmo de amigas que parecem viver na academia e exibem curvas milimetricamente esculpidas. E é verdade: o belo naturalmente atrai a atenção humana. Mas, sem perceber, alguns cliques são suficientes para ensinar ao algoritmo exatamente o que queremos ver. Pouco tempo depois, somos cercadas por uma sequência quase infinita de corpos, rostos e estilos de vida que parecem seguir um mesmo padrão. É nesse ponto que a experiência deixa de ser apenas entretenimento e começa a dialogar com a nossa autoestima.
A ciência vem observando esse fenômeno há alguns anos. Uma revisão sistemática publicada na revista Adolescent Research Review, que analisou 43 estudos experimentais envolvendo mais de 8 mil participantes, concluiu que a exposição frequente a imagens idealizadas nas redes sociais está associada ao aumento da insatisfação corporal, especialmente entre mulheres jovens. Os pesquisadores observaram que a comparação com padrões considerados ideais de beleza tende a influenciar negativamente a forma como enxergamos o próprio corpo.
Talvez o perigo não esteja apenas nas imagens em si, mas na comparação silenciosa que elas despertam.
Comparamos nossos corpos — ou, como se costuma dizer nas redes, nosso “shape” —, nossos cabelos, nossa pele, nossa expressão e até o nosso sorriso. E essa comparação quase nunca acontece em condições justas. Porque, junto com a aparência, também passamos a comparar estilos de vida. A rotina de treinos, os procedimentos estéticos e cirúrgicos, a alimentação cuidadosamente planejada. Tudo isso exige recursos, tempo, dinheiro, apoio e circunstâncias que nem sempre aparecem na fotografia.

Enquanto isso, a maior parte das mulheres está ocupada conciliando trabalho, família, estudos, responsabilidades domésticas e uma infinidade de tarefas invisíveis. Muitas vezes, aquele café sem pressa ou uma refeição prazerosa representam alguns dos poucos momentos de pausa em meio à rotina agitada.
Entretanto, pondero que a busca por saúde é realmente importante e que o movimento faz bem ao corpo, fortalece a mente e está associado à redução do estresse, da ansiedade e de diversos problemas de saúde. A questão talvez seja mudar o ponto de partida dessa busca.
Em vez de perseguir um padrão, podemos perseguir bem-estar; em vez de usar a comparação como medida, podemos olhar para a nossa própria trajetória. Talvez seja nesse processo que mora o equilíbrio: quando o exercício físico caminha ao lado da saúde mental, quando aprendemos a reconhecer nossa individualidade e quando passamos a valorizar não apenas a aparência do corpo, mas tudo aquilo que ele nos permite viver. No fim das contas, a única comparação realmente justa é com quem fomos ontem e com quem estamos nos tornando.
Como escreveu Pedro Bial na canção “Filtro Solar” que atravessa gerações: “Desfrute do seu corpo. Use-o de toda maneira que puder. Não tenha medo dele ou do que as outras pessoas pensam dele. É o mais incrível instrumento que você jamais vai possuir.”
Num tempo em que as redes sociais tentam nos dizer como deveríamos ser, talvez o maior exercício de autoestima seja fazer as pazes com quem já somos. Porque o corpo que tantas vezes julgamos é, na verdade, o mesmo que nos acompanha em cada conquista, em cada desafio e em cada experiência que dá sentido à vida.