Coluna: Mais que mãe – Aliene de Carli
A maternidade te faz correr pra ela ou fugir do que pede sua presença?
Julho tem um certo ar de caos para quem acompanha seus filhos nas férias, ou que nem sempre pode seguir esse calendário pedagógico, como pede o figurino. Você pode considerar julho ou dezembro, janeiro, se assim preferir. Onde tudo é ferias, ou deveria ser.
Cada um com suas tarefas, nem mais, nem menos. Cada um com seu papel dentro do lar e fora dele, o trabalho é de ambos, pai e mãe. Mas nem sempre essa conta do lazer fecha igualmente para ambos. Calma, eu não vim aqui dizer que mães trabalham mais, ainda que eu ache bem trabalhoso ser mãe em tempo de férias também.
Mas veja bem, estou confortavelmente digitando esse texto em uma padaria próxima de casa, pós almoço, sem que seja necessário registrar meu horário de retorno do almoço. Sim, reconheço que isso é um privilégio. Ser mãe e poder ficar horas a mais com meu filho pela manhã também o é. Tenho certeza que se o pai dele também pudesse, estaria estendendo suas manhãs em troca de partidas de futebol, legos e mais brincadeiras.
E é sobre isso que te convido a ler e refletir, como fizer sentido pra você. Ninguém tem fórmula mágica para a maternidade e suas individualidades, mas podemos pensar juntas e encontrar nosso melhor caminho na condução do que nos aflige.
Confesso que me afligia pensar nas programações das férias, caso essas já não tivessem um destino, uma viagem, previamente programados. Trinta dias. São 30 dias para pensar, inventar programação e cansar as crianças. Mas será que nós, digo, as mães, não cansamos mais do que eles pensando no que fazer, pra onde iremos, qual brincadeira, esporte, colônia de ferias, será mais divertido fazer. Meu filho nunca foi adepto da colônia de férias. Afinal, voltar pra escola com atividades guiadas, não seria algo tão prazeroso como estar em casa brincando do jeito que a imaginação manda. Eu nunca fui pra colônia de férias. Não sei se tinha na minha época, mas também não iria.

Talvez o maior desafio das férias não seja planejar um mês completo de programações, mas suportar a ideia de que nem todo tempo precisa ser preenchido. Existe uma certa ansiedade em nós, adultos, que nos faz acreditar que bons pais devem criar memórias inesquecíveis diariamente, quando muitas vezes, lembrança mais inesquecível pro seu filho pode ser uma guerra de água, uma receita preparada de última hora com o que tem na geladeira. Tenho certeza que a memória de hoje foi o quanto brincamos de lego no chão com todas as peças espalhadas pelo chão. Nesse momento, a mania de organização pede licença para que tudo esteja fora do lugar, afinal, filhos pedem presença, brinquedos pedem movimento. E se permitir, exige que você tenha muita coragem de exercer o melhor papel da carreira, sentar no chão e tomar posse da brincadeira que seu filho pede.
O maior convite das férias para nós, mães, talvez seja esse: correr menos, deixar o tempo correr por si só e confiar que ele já está completo exatamente como é. Despreocupar se estamos oferecendo atividades suficientes ao nosso filho é desacelerar a mente e perguntar se estamos conseguindo estar presentes enquanto o tempo passa. As férias acabam, a rotina volta e tudo segue acelerado, mas a infância não volta, não espera pelo próximo cronograma. Ela acontece entre o inesperado e o programado, entre a bagunça dos brinquedos e o silêncio da casa, entre a sujeira da tinta guache e do banho divertido com brinquedos que ficam pelo piso do banheiro pingando água. Aliás, meu marido pontuou com expressão de tristeza dia desses, que nosso pequeno de 6 anos já não está levando brinquedos para o banho como sempre fazia, mas que bom que ele fez isso por muito tempo.