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Por que a ausência de dívidas não significa saúde financeira

Matheus Baldini
Inteligência Financeira
Por Matheus Baldini

Economista e consultor financeiro, traduz temas de planejamento, dinheiro e patrimônio em informações úteis para decisões mais conscientes.

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A armadilha do “tô indo bem” — e o que ela esconde

Imagine alguém que recebeu uma promoção no início do ano. Salário maior, cargo novo, aquela sensação boa de que o esforço valeu a pena. No mesmo mês, trocou o celular, parcelou uma televisão nova e aproveitou para colocar em dia umas viagens que tinha adiado. Tudo no cartão, tudo sem juros, tudo dentro do limite. Quando alguém perguntava se estava endividada, a resposta era sincera: “não, não devo nada.”

 

E tecnicamente era verdade. Não havia dívida nenhuma. O que havia era o ano inteiro comprometido.

 

Esse é um dos pontos cegos mais comuns na vida financeira de quem vive no Brasil. A cultura do parcelamento é tão enraizada que a gente deixou de enxergar parcela como dívida. Virou só uma forma de organizar o pagamento, algo que “cabe no bolso” e, portanto, está sob controle. O problema é que o bolso do mês que vem já está cheio antes mesmo de o salário cair.

 

Existe uma diferença importante entre não ter dívida e ter o futuro livre. Quando você parcela sem planejamento, você está consumindo uma renda que ainda não chegou. Está fazendo acordos com o seu eu do futuro sem perguntar se ele vai querer honrar isso. E o eu do futuro, quando chega, raramente tem mais folga do que o de hoje.

 

O parcelamento em si não é vilão. É uma ferramenta. O problema está em usá-la sem consciência do impacto acumulado. Uma parcela aqui, outra ali, um compromisso que parecia pequeno, e de repente você olha para o extrato e percebe que está amarrado por meses, sem margem para nada que não estava no plano original.

 

Parcelamento recorrente

 

E aí qualquer imprevisto vira uma crise. Uma consulta médica fora do plano, um conserto no carro, uma oportunidade de investimento que aparece e some rápido porque o dinheiro já estava comprometido com aquela televisão comprada seis meses atrás.

 

A situação fica ainda mais clara quando aparece uma oportunidade de mudança, seja de emprego, de cidade, de projeto. Quem tem o futuro comprometido em parcelas não consegue se mover com liberdade. Não porque falta coragem, mas porque falta margem.

 

Não estar endividado é um bom sinal. Mas não é o suficiente para dizer que se está bem.

 

No fim das contas, saúde financeira não é só o que você deve hoje. É também o quanto do seu amanhã já está comprometido antes de você acordar. Essa é uma conta que pouca gente faz, e que faz toda a diferença na hora de tomar decisões com liberdade.

 

Parcelar é fácil. O difícil é lembrar que o mês que vem também vai chegar.

Sobre colunista

Matheus Baldini assina a coluna Inteligência Financeira na Inspira FM, com conteúdos sobre planejamento financeiro, patrimônio e decisões que ajudam a construir uma relação mais saudável com o dinheiro.

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