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Maior serpente peçonhenta das Américas tem filhotes no Butantan

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O Instituto Butantan, em São Paulo, alcançou um marco histórico ao conseguir reproduzir em cativeiro a surucucu-pico-de-jaca (Lachesis rhombeata), considerada a maior serpente peçonhenta das Américas. O nascimento de seis filhotes, entre o fim de 2025 e o início deste ano, coroa décadas de tentativas da equipe do Laboratório de Herpetologia e representa um avanço importante tanto para a conservação da espécie, ameaçada de extinção, quanto para a produção de soro antiofídico.

Os pais da ninhada foram enviados ao Butantan entre 2022 e 2023, a partir de uma parceria com o Laboratório Interdisciplinar de Anfíbios e Répteis (L.I.A.R.) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e a Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH). Nativa da Mata Atlântica e classificada como vulnerável, a surucucu-pico-de-jaca tem sofrido com a destruição de seu habitat. Ao lado da Lachesis muta, que vive na Amazônia, ela figura entre as maiores serpentes peçonhentas do continente.

Em junho do ano passado, a fêmea Olinda e o macho Sapoti acasalaram no biotério do Instituto Butantan após um período de cerca de 90 dias separados, estratégia adotada pelos pesquisadores para estimular o comportamento reprodutivo. Como resultado, seis filhotes nasceram entre o fim de 2025 e o início de 2026; cinco sobreviveram e permanecem no laboratório paulista. O protocolo será repetido no próximo ciclo reprodutivo para confirmar se o manejo adotado foi determinante para o sucesso.

Coordenadora do projeto, a médica-veterinária e pesquisadora científica Kathleen Grego destaca que a reprodução em cativeiro abre novas perspectivas para o manejo da espécie. Segundo ela, formar populações saudáveis em ambiente controlado é fundamental para pensar em estratégias futuras de repovoamento, manejo genético e, ao mesmo tempo, garantir matéria-prima para pesquisa e produção de soro antilaquético-botrópico, utilizado no tratamento de acidentes com o veneno da surucucu. O laboratório tentava reproduzir a espécie há décadas, mas esbarrava em obstáculos como o número reduzido de animais, plantéis formados apenas por machos ou por fêmeas e dificuldades em reproduzir, em São Paulo, as condições de temperatura e umidade típicas do Nordeste.

Os filhotes também carregam a história do projeto em seus nomes. Quatro deles foram batizados em homenagem a Pernambuco — Sebastiana, Pitomba, Frevioca e Suassuna —, estado de origem dos pais. Já Grego e Timão lembram a pesquisadora Kathleen Grego e o ex-diretor do Butantan, Wilson Fernandes, que iniciou as primeiras tentativas de reprodução do gênero Lachesis nos anos 1990. Apenas Timão não resistiu; os demais seguirão sob acompanhamento intenso no plantel.

As jovens serpentes devem levar cerca de três anos para atingir a fase adulta e, até lá, serão monitoradas de forma minuciosa. Cada filhote terá um diário individual com registros mensais de peso e comprimento, controle da alimentação, anotações de todas as trocas de pele e exames de sangue periódicos. Os pesquisadores também pretendem comparar o veneno dos filhotes com o dos adultos, em um estudo de ontogenia, para entender como as características do veneno se modificam ao longo do desenvolvimento.

Para a equipe do Butantan, o êxito da ninhada é resultado direto da combinação entre manejo adequado, ajustes ambientais no biotério e cooperação entre instituições. Depois de décadas de tentativas, o nascimento dos filhotes simboliza um passo importante na preservação da surucucu-pico-de-jaca e reforça o papel do Instituto na produção de soros essenciais para a segurança da população exposta a acidentes com serpentes venenosas.

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