
MAIS QUE MÃE
Por Aliene de Carli
Empresária, comunicadora e mãe, compartilha reflexões sobre maternidade, identidade, trabalho, relações e os diferentes aspectos da vida da mulher.
A vida entre prazos e abraços – algumas tarefas esperam, algumas fases da vida, não.
“Vou deixar esse trabalho pra depois, afinal, logo mais vai sobrar um tempinho.”
Que mãe nunca se iludiu com a possibilidade de finalizar um trabalho, ler um texto ou responder aquele e-mail que precisava de muita concentração para ser escrito, enquanto esperava uma consulta, aguardava a chamada do embarque ou seu filho tirava uma soneca?
Há dias em que nem todas as tarefas propostas deram certo naquele horário comercial. As mães costumam sempre dar um jeitinho para cumprir o que é preciso, mas nem sempre a tarefa é simplesmente operacional. Às vezes é preciso silêncio para se concentrar, rever o trabalho que ficou faltando, ou somente organizar as ideias. Mas quando há crianças nesse cenário, a sua corrida para a linha de chegada é muito mais concorrida do que para quem compete somente com os números, metas e prazos. Aliás, prazo, é algo subjetivo no mundo materno.

Quando se divide a atenção entre afazeres e criança, qualquer prazo vira apenas uma suposição. Há chances de conseguir chegar na sua meta com algum desafio a mais, há chances de finalizar um trabalho de forma brilhante, e dá para fazer, muitas vezes, o que é possível – e considerando tudo, foi muito bom. E muitas vezes é. Porque ser mãe é glorioso, é custoso. Há custos emocionais, financeiros, sociais, e tantos outros que nem cabem numa planilha. Alguns são simplesmente imensuráveis. E o silêncio…ah, o silêncio. Para uma mãe, ele parece pertencer a uma espécie rara e ameaçada de extinção.
Entre risadas, perguntas que surgem a cada trinta segundos, brinquedos que fazem barulho e aquela conversa animadíssima que, curiosamente, acontece sempre no momento em que você precisa de mais concentração, vou tentando manter o foco. Mas também quero ouvir. Quero saber a última novidade da escola, aquela descoberta da aula de inglês e o que ele construiu na aula de “maker”. Veja bem, todos essas pautas são super importantes para as crianças; se você acha que ele está apenas falando para te atrapalhar, reveja seu olhar. Assim como brincar, ouvir as novidades dos pequenos é coisa séria. É uma forma de dizer: eu me importo com o seu mundo. E talvez seja justamente por isso que é tão difícil dividir as horas com seu trabalho externo e com esse trabalho, muito menos remunerado e infinitamente mais importante: o de ser presença.

E talvez seja justamente aí que mora a graça: enquanto eu luto, por alguns minutos só, porque essa batalha eu também desisto facilmente por ele, para terminar uma linha de raciocínio, uma frase, meu filho segue vivendo a infância em toda a sua potência — barulhenta, espontânea, alegre e absolutamente sem compromisso com a minha necessidade de concentração. E no fim, respiro fundo, sorrio e penso: um dia sentirei falta desse barulho, dessa insistência em me desconcentrar ou nada perceber sobre a responsabilidade que eu tenho de entregar um material até “tál” hora. E tudo isso são apenas constatações e reflexões sobre a delícia de se aventurar na caminhada de ser mãe.
A maternidade tem dessas ironias. A gente passa anos tentando fazer o filho dormir para ter um pouco de tempo e, depois, talvez passe outros tantos anos desejando ouvir novamente aquela voz que insistia em me chamar para brincar ou me mostrar um novo avião de papel que ele acabou de fazer.

Por isso, entre uma tarefa e outra que fica para amanhã, entre uma meta cumprida e outra que precisará esperar, vou aprendendo que nem tudo é urgente no momento. Algumas coisas podem esperar, alguns prazos podem ser renegociados.
Mas a infância não espera. E é ai que mora a beleza – e a loucura – dessa aventura de ser mãe. Sempre reforçarei essa missão com seus desafios e prazeres. Aliás, eu nunca sonhei em ser mãe, mas um dia esse sentimento me tocou. E nunca mais consegui me sentir em outra fase da vida. Todas elas foram vividas e apreciadas, mas essa é divina, é gloriosa, trabalhosa, é cansativa e engraçada. Tem um misto de pressa e nostalgia, e nada se compara a sensação de ter que dar conta de mim e de outro ser que nasceu de mim. Então, por hoje, tive que parar por alguns minutos para escrever este texto. Daqui a pouco, não sei a demanda mais urgente que terei. Provavelmente, já haverá um “Mãe” me esperando. Mas, se puder ser só um pouquinho mais tarde, agradeço.
Sobre a colunista
Aliene de Carli assina a coluna Mais que Mãe na Inspira FM, com conteúdos sobre maternidade, identidade, carreira, relações, autocuidado e os muitos papéis que fazem parte da vida feminina.