97.7 INSPIRA FM OUÇA AGORA
Carregando...
AO VIVO

Muito tédio no trabalho? Você pode ter boreout

Muito tédio no trabalho? Você pode ter boreout

Por André Bernardo

Em uma década de carreira executiva, Patrícia Cotton, de 43 anos, passou por três empresas: de 2003 a 2007, ela trabalhou em uma programadora de canais por assinatura; de 2007 a 2010, em uma rede de cosméticos; e, de 2010 a 2013, em um fundo do mercado imobiliário. “Eram viagens constantes e noites insones”, queixa-se. “Mesmo exercendo atividades intelectuais, eu me sentia exausta física, mental e emocionalmente.”

A fadiga que Patrícia sentia é um dos sinais de boreout. De origem inglesa, o termo deriva da palavra bored e quer dizer “entediado”. “Todos nós, ocasionalmente, nos sentimos desmotivados no trabalho. Mas, se essa desmotivação persiste por semanas ou meses, pode ser tédio”, afirma Philippe Rothlin. “Os sinais típicos incluem, além da fadiga, tédio persistente, sensação de subutilização e falta de propósito. Férias podem trazer um alívio temporário, mas raramente resolvem o problema. A solução é, em vez de aceitar a situação passivamente, buscar desafios e assumir responsabilidades.”

Rothlin sabe do que está falando. Afinal, foi ele quem criou, ao lado de Peter Werder, a expressão boreout. O termo nasceu em 2008, quando os dois consultores suíços lançaram o livro Boreout! Overcoming Workplace Demotivation (Boreout! Superando a desmotivação no ambiente de trabalho, em tradução livre), inédito no Brasil. “Como muitos profissionais, Werder e eu passamos por períodos em que nossas habilidades podem ter sido subutilizadas”, conta.

Difícil de reconhecer

A síndrome de boreout, ou síndrome do tédio crônico, é “prima-irmã” de outra síndrome, a de burnout. O termo foi criado pelo psicólogo alemão Herbert Freudenberger em 1974 e pode ser traduzido como “queimar-se por completo”. Workaholic, Freudenberger trocava o dia pela noite no atendimento a usuários de drogas. Vítima de esgotamento, caiu doente.

“Enquanto o burnout consome pelo excesso, o boreout castiga pela falta. Embora sejam fenômenos diferentes, são profundamente adoecedores”, adverte o psicólogo Saulo Velasco, de The School of Life. “O que talvez torne o boreout traiçoeiro é o silêncio. Quem sofre tende a se calar porque admitir tédio no trabalho carrega um estigma de fraqueza, falta de ambição ou ingratidão. O boreout é mais difícil de ser diagnosticado do que o burnout.”

O silêncio dos que sofrem chamou a atenção de Cátia Camila da Silva. Em 2022, ela se deparou com o termo ao pesquisar sobre gestão de pessoas para seu doutorado em Administração pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A princípio, julgou se tratar de um erro de digitação.

Curiosa, abriu a reportagem e levou um susto. Aquele conceito descrevia sentimentos que ela própria havia experimentado em alguns momentos da carreira. “A síndrome de boreout ainda é pouco discutida porque existe um tabu”, acredita Cátia. “Socialmente, costuma ser mais bem aceito dizer que está trabalhando além do limite ou enfrentando excesso de demanda do que admitir que se tem pouco trabalho ou que suas atividades são pouco desafiadoras. Existe o risco de ser visto como preguiçoso, desinteressado e improdutivo. Pior: sofrer represálias ou até mesmo perder o emprego.”

Muitos sentem vergonha do que fazem por ter atividades fáceis demais ou pouco importantes. Outros desenvolvem estratégias para parecer sempre ocupados: dizem que levarão trabalho para casa e enviam e-mails fora do horário para ocultar que têm pouca demanda ou que já terminaram o que tinham para fazer. “Enquanto o burnout decorre da sobrecarga, o boreout resulta da subutilização”, diz Cátia.

Falta ou excesso?

A síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, ganhou visibilidade em 2019, quando foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como fenômeno ocupacional. Ela é caracterizada pelo ceticismo, isto é, quando o trabalhador perde o interesse pelo que faz, e pela ineficácia, quando ele não produz o que gostaria. Já o boreout não figura na Classificação Internacional de Doenças (CID), pelo menos por enquanto.

“Pesquisas da ISMA-BR indicam que 32% dos profissionais brasileiros sofrem de burnout. Não há pesquisas indicando a porcentagem de quem tem boreout no Brasil”, pondera a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil. “Enquanto o boreout produz sentimento de inutilidade e desmotivação, o burnout gera consequências mais dramáticas, como o adoecimento ou a exaustão”, compara.

Dezenas de livros já foram escritos sobre o burnout. Um dos mais recentes é Exaustas – Mulheres que Se Exigem Demais (editora Agir), da psicóloga espanhola Júlia Martí. A autora reconhece que é fácil confundir as síndromes. Embora tenham origens diferentes, as duas têm como resultado sofrimento psicológico e baixa produtividade. No entanto, ela faz um alerta: mais importante do que prestar atenção nas consequências é descobrir as causas do problema.

“Se você termina um dia de trabalho e pensa: ‘Não aguento mais esse trabalho’, você provavelmente está sofrendo de burnout. Por outro lado, se o sentimento predominante é ‘Estou desperdiçando meu talento’, podemos estar falando de boreout”, distingue Martí. “Exaustão persistente, perda de motivação e dificuldade de concentração são sinais de que algo precisa ser feito, independentemente de a causa ser falta ou excesso de trabalho.”

O que fazer?

Há algumas opções. Uma delas é abrir o jogo com o chefe: tarefas até pouco tempo instigantes se tornaram enfadonhas. Nesse caso, não há muito o que fazer, senão pedir para mudar de função ou de setor dentro da empresa.

Já em casos extremos, a saída pode ser a mudança de emprego. Isso mesmo: pedir demissão e partir para outra.

“Em geral, a tendência é atribuir o problema ao profissional. Mas, da mesma forma que a saúde do peixe depende da qualidade da água, a saúde do trabalhador depende do ambiente de trabalho”, afirma o psicólogo Antônio José de Carvalho, autor do livro Síndrome de Burnout – Uma Ameaça Invisível no Trabalho (editora Interciência). “Não basta tratar o peixe que está doente ou, então, substituí-lo por outro. É preciso limpar a água do aquário, que está suja.”

Patrícia Cotton deixou o cargo em 2013 e resolveu tirar um ano sabático. Ou, como ela mesma diz, “uma jornada antitédio”. Em 12 meses, entrevistou CEOs do mundo inteiro, do Vale do Silício à Ásia, e visitou lugares inusitados, como um templo budista na Alemanha. Voltou da viagem com um MBA e abriu a própria empresa, a Upside Down Thinking. Hoje, presta consultoria em transformação de negócios, liderança criativa e gestão de mudança.

“Eu sentia uma inquietação. Um desejo de movimento que o trabalho corporativo não acolhia. O tédio era menos um diagnóstico e mais um sinal: apontava para a mudança”, analisa Patrícia. “O tédio pode nos paralisar ou nos mobilizar. Depende da nossa capacidade de aprender a escutá-lo antes que ele se transforme em ruptura. O desafio é não anestesiá-lo, mas transformá-lo em reflexão. Tédio é alavanca, e não destino.”

Mais recentes

Festival de Fondue do Vila Paraíso: O Destino Perfeito para as noites frias em Joaquim Egídio!

Euro Summer: dicas para aproveitar ao máximo

Muito tédio no trabalho? Você pode ter boreout

Suplementos para pele, cabelo e unhas: funcionam mesmo?

Empreendedorismo feminino: como mulheres estão construindo seus próprios negócios