
MAIS QUE MÃE
Por Aliene de Carli
Empresária, comunicadora e mãe, compartilha reflexões sobre maternidade, identidade, trabalho, relações e os diferentes aspectos da vida da mulher.
Nem todo silêncio é vazio – quando a mãe se cala
Tenho a sensação de que estamos vivendo um momento em que todo mundo tem algo para falar. Comigo não é diferente, sou comunicativa e falo muito desde sempre. Mas, por alguns momentos, parece que as ideias somem, que não temos boas palavras ou respostas para oferecer. Vazios como esses são comumente experimentados pelas mães.
A impressão de não estar contribuindo ou produzindo nos ronda constantemente, e por vezes, muito injustamente nos colocamos nesta posição de improdutividade. Chega ser irônico dizer que há um “vazio”na vida de uma mãe.
Porque vazio é uma palavra que não combina com uma rotina cheia de demandas, de pequenos pedidos, lembretes e afazeres, onde, na maioria das vezes, não se tem a possibilidade de adiamentos e cancelamentos. A vida adulta chama. Ela grita por nós a todo momento em que queremos um cantinho para descansar ou um colo para apreciar o silêncio.
Pode ser saudade da família, das amigas de anos de convivência. Pode ser os hormônios, pode ser tudo. Juntar acontecimentos inesperados, expectativas, saudades, sentimentos que não sabemos traduzir, pode ser uma grande cilada. Quando eles se amontoam em um potinho, podem nos trazer muito desconforto, transbordando em lágrimas. Mas vamos deixar elas chegarem e fluírem para onde devem ir. Emoções são para serem sentidas e acolhidas. Nem tudo precisa ser resolvido no mesmo instante em que aparece.

Tenho me sentido mais para dentro de mim. Pensando demais, falando de menos. Olhando para tudo ao meu redor e me perguntando se ainda tenho alguma coisa boa para acrescentar. A gente se acostuma a achar que precisa estar sempre disponível, sempre cheia de ideias, sempre tendo alguma coisa para oferecer. Como se parar fosse sinal de que estamos ficando para trás.
Pode ser uma fase, que como qualquer outra, deve ser respeitada e vivida. Há fases mais falantes, há fases em que é preciso mais ouvir do que falar. Mais sentir do que explicar. Mais ficar quieta do que tentar transformar tudo em alguma coisa bonita que mereça ser compartilhada.
Isso também é generoso com uma mãe que é devota, que vive as fases da sua cria, que acompanha e se adapta para viver em mundinhos lindos e diferentes. Mais que isso, é importante lembrar que também viemos desse ambiente fantasioso e introspectivo, o mundo lúdico e divertido da infância. Assim como as crianças, também precisamos abraçar e cultivar nosso solo individual, e por vezes, solitário.
Poder se permitir existir nesse silêncio, sem transformar imediatamente o que sinto em resposta, aprendizado ou conteúdo, é libertador e respeitoso. Hoje, pode ser que você não encontre nada extraordinário nessa reflexão, apenas a sua presença na atenção da leitura. Na atenção do olhar atento que você dedica a sua criança, a escuta e o olhar atento, e a disposição de continuar, mesmo quando a mãe não sabe muito bem para onde está indo.
Uma mãe não precisa estar sempre inspirada para ser importante. Ela não precisa produzir o tempo todo, ensinar o tempo todo, resolver todas as questões e ter respostas para tudo. Há momentos em que ser mãe também é recolher-se, pausar, respirar, observar e simplesmente existir. E talvez, quando ela pensar que não tem nada de bom a acrescentar, é quando precisa lembrar que o seu valor não está apenas naquilo que ela produz ou oferece aos outros.
Há coisas que acontecem em silêncio.
Um olhar que acompanha.
Uma mão que segura.
Um ouvido que escuta.
Um colo que permanece.
Nem toda experiência precisa virar aprendizado. Nem todo sentimento precisa encontrar imediatamente um nome. Às vezes, o que uma mãe tem para oferecer é apenas a sua presença. E isso não é pouco. Presença é uma das formas mais bonitas de se demonstrar que se ama, se importa com quem está ao seu lado. A presença que não apressa o tempo, que não tenta preencher um silêncio e que não exige de si mesma uma resposta para tudo.
Porque, no fim, talvez não exista vazio nenhum. Antes de ser “mãe”, já existia uma mulher inteira, cheia de sentimentos, atravessando momentos que vão sendo digeridos e respeitados por dentro, até que as palavras nasçam para descrevê-los melhor, ou não.
Sobre a colunista
Aliene de Carli assina a coluna Mais que Mãe na Inspira FM, com conteúdos sobre maternidade, identidade, carreira, relações, autocuidado e os muitos papéis que fazem parte da vida feminina.