Esse é um dos maiores clássicos do carnaval do brasil e quase ninguém sabe que foi uma mulher, neta de escravizados, que compôs.
A mulher que fez essa música, desde pequena, teve o temperamento muito forte. Tão forte que os pais obrigaram ela a casar com 16 anos acreditando que o casamento ia dar um jeito nela.
Teve o primeiro filho com 16, com 17 o segundo. Só que ela não era muito chegada na vida doméstica. Cuidar da casa, marido, dos filhos…o negócio dela mesmo era o piano.
O marido dela tava na esperança de que quando ela tivesse filhos largaria a música pra ficar só cuidando dos meninos, mas isso não aconteceu. E ele foi ficando incomodado.
A coisa ficou tão feia que ele falou pra ela: a música ou eu.
E ela respondeu:
“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia”
Largou dele e voltou pra casa.
*A vida sozinha e a música como profissão*
Os pais dela não apoiaram o divórcio e fizeram pressão pra ela voltar com o marido.
No meio disso ela descobriu que tava grávida do terceiro filho e aí acabou voltando com o marido. Mas depois que o filho nasceu, o cara continuou pegando no pé dela até que ela injuriou e largou do marido de vez.
O pai dela considerou ela morta. Não deixaram nem ela criar os filhos. Um ficou com o pai e os outros dois com a família dela.
Um tempo depois ela começou a ficar com um engenheiro e resolveu mudar de cidade pra evitar o escândalo.
Ficou grávida do engenheiro, o ex-marido descobriu e processou ela por adultério e abandono de lar. E ela foi condenada.
Quando a menina nasceu, ela descobriu que o engenheiro tava traindo ela. Largou o engenheiro e voltou pro rio de janeiro.
Sozinha, sem pai, sem marido, sem filhos, foi morar num quarto em São Cristóvão e precisava achar um jeito de sobreviver. Começou a dar aula de piano e a compor.
O nome dela começou a rodar até que chamaram ela pra fazer música pra peça de teatro.
Quando as composições dela começaram a fazer sucesso, as famílias dos ex-maridos ficavam indo atrás das partituras para rasgar e não deixar ninguém comprar.
Mas não adiantou. Logo ela começou a reger as orquestras dos teatros e se tornou a primeira maestra do brasil.
Começou a usar o dinheiro que ganhava na música pra acabar com a maior injustiça da época. Comprava a liberdade de escravizados.
Só que tinha muita peça de teatro usando as músicas dela sem pagar. Aí ela se tornou a primeira pessoa do brasil a lutar pelos direitos autorais.
Fundou a sociedade brasileira de autores teatrais, só tinha ela de mulher.
Com 50 anos ela já tava famosa e bem-sucedida. Nessa época conheceu um menino português chamado joãozinho, de 16 anos.
O Joãozinho trabalhou com ela por um tempo até que ela chamou ele pra morar na casa dela. Pra evitar mais um escândalo na sociedade, ela resolveu adotar o menino, no papel, e apresentar ele como filho da porta de casa pra fora. Mas da porta pra dentro…
*Como o sucesso nasceu*
No carnaval de 1899, ela tava morando no andaraí e o cordão rosa de ouro passava pela rua dela.
Enquanto o cordão ensaiava, ela ficou observando toda aquela multidão se movimentando e teve uma ideia.
Naquela época o carnaval não tinha música própria. A turma só ficava gritando junto com uns batuques.
Então ela pensou em criar uma música que pudesse representar aquele momento, o clima daquelas pessoas fazendo festa nas ruas.
“Ó abre alas! Que eu quero passar (bis) Eu sou da lira, não posso negar”
Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a maestra Chiquinha Gonzaga, tinha acabado de fazer a primeira música de carnaval do brasil.
A partir de “Abre Alas” a música passou a ser indispensável no carnaval brasileiro.
Na carta testamento, 15 anos antes de morrer, Chiquinha Gonzaga escreveu:
“Com minha triste vida de trabalho e injustiça, adeus. Sofreu e chorou.
Chiquinha Gonzaga morreu no rio de janeiro em 1935, mas o legado dela de luta, talento e representatividade sobrevive além dos carnavais.