Imposto sobre ultraprocessados pode evitar quase 34 mil mortes no Brasil em uma década

Estudo brasileiro projeta impacto direto da medida na redução de doenças crônicas e obesidade

Por Equipe Inspira

O aumento no preço dos ultraprocessados pode alterar o padrão de consumo da população brasileira (Foto: Reprodução)

O Brasil pode evitar 33,9 mil mortes em dez anos se adotar uma política fiscal mais rigorosa sobre alimentos ultraprocessados. A estimativa é de um estudo publicado na American Journal of Preventive Medicine, conduzido por pesquisadores brasileiros que simularam o impacto de diferentes cenários de tributação sobre esses produtos.

A modelagem indica que uma redução de 6,7% na prevalência de excesso de peso até 2030, possível a partir do aumento de preços via imposto, evitaria ainda 182,2 mil novos casos de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.

O que o estudo simulou

O trabalho analisou como o aumento no preço dos ultraprocessados poderia alterar o padrão de consumo da população brasileira e, consequentemente, reduzir fatores de risco associados à obesidade.

Segundo os autores, a lógica é semelhante à adotada com o tabaco: encarecer produtos comprovadamente prejudiciais à saúde reduz o consumo e gera benefícios coletivos no médio e longo prazo.

“Nossas simulações mostram que políticas fiscais que aumentem o preço dos ultraprocessados podem reduzir o consumo desses produtos e, consequentemente, diminuir a prevalência de sobrepeso e obesidade no país. Isso se traduz diretamente em vidas salvas”, afirma o pesquisador Eduardo Nilson, um dos autores do estudo.

O modelo considera tendências atuais de crescimento do excesso de peso no Brasil. Sem intervenções, os pesquisadores estimam que mais de 800 mil mortes associadas a doenças crônicas relacionadas ao sobrepeso podem ocorrer ao longo da próxima década.

Ultraprocessados e mortalidade

Os ultraprocessados incluem refrigerantes, salgadinhos industrializados, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, embutidos e refeições prontas com alto teor de sódio, açúcar e gorduras.

Outra pesquisa também publicada na American Journal of Preventive Medicine estimou que o consumo desses produtos esteve associado a 57 mil mortes prematuras no Brasil em 2019, o equivalente a 10,5% das mortes entre adultos de 30 a 69 anos naquele ano.

Reduções graduais no consumo poderiam evitar milhares de mortes anuais, reforçando o argumento de políticas estruturais.

“Reduzir o consumo de ultraprocessados não é apenas uma questão de escolha individual. É uma decisão estrutural de saúde pública. A tributação pode sinalizar prioridades sanitárias e induzir mudanças tanto no consumo quanto na própria formulação dos produtos”, destaca Joyce Camargo, pesquisadora e coautora do estudo.

Impacto para o sistema de saúde

Além das vidas preservadas, a medida teria potencial para reduzir custos do Sistema Único de Saúde (SUS) com tratamento de doenças crônicas, hoje responsáveis por grande parte das internações e dos gastos assistenciais no país.

Especialistas apontam que políticas fiscais são consideradas uma das ferramentas mais custo-efetivas em saúde pública, especialmente quando combinadas com rotulagem clara, educação alimentar e incentivo ao consumo de alimentos in natura.

O debate no Brasil

A discussão sobre tributação de ultraprocessados ganhou força durante a reforma tributária, com entidades científicas defendendo a inclusão desses produtos no chamado “imposto seletivo”, destinado a itens prejudiciais à saúde.

Para os pesquisadores, os dados reforçam que a medida não é apenas econômica, é uma estratégia de prevenção em larga escala.

Em um cenário de crescimento contínuo da obesidade no Brasil, o estudo sugere que decisões fiscais tomadas hoje podem significar dezenas de milhares de vidas preservadas nos próximos anos.

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